Patrícia Campos Mello abriu a mesa do Litercultura 2019

O Litercultura abriu sua série de conversas em 2019 com a jornalista Patrícia Campos Mello, que abordou o tema central do evento, fronteiras, sob dois aspectos diversos, mas convergentes: as fronteiras geopolíticas e as digitais. Com ampla experiência em jornalismo investigativo, e premiada por isso, a autora respondeu questões do também jornalista Christian Schwartz, bem como do público. As histórias colhidas ao longo dos anos ressaltam a humanidade mais que os números e estatísticas. Sobre a cobertura na Síria, por exemplo, ela conta ter viajado para cobrir conflitos e voltado também com uma história de amor, contada em detalhes em seu Lua de mel em Kobane, que entrelaça questões históricas e sociais do contexto e uma paixão vivida por um casal que se conheceu pela internet e foi viver em uma cidade dominada pelo Estado Islâmico.

Entre as questões que mais chocaram a escritora, bem como grande parte do mundo, está a foto de Alan Kurdi, menino sírio morto numa travessia migratória: teria sido esta imagem o gatilho definitivo que a fez investigar a história da família em Kobane. Eis cenário, personagens e conflitos que compuseram a trajetória de Campos Mello para a escrita do livro. A foto do menino gerou um debate mundial a respeito dos limites sensíveis entre o que pode ser visto como sensacionalismo e, por outro lado, como um despertador da letargia. “Qual a fronteira do suportável?” “O respeito às pessoas. Antes de ser jornalista, sim, somos pessoas. Nesse sentido, como falar de isenção jornalística?”

Quem acompanha de longe os tantos acontecimentos pode ter “muitos preconceitos e reações sem correspondência com a realidade. É preciso criar empatia, conhecer histórias individuais”, ela disse ao público do Litercultura.

A conversa trouxe a antiga dualidade – ao mesmo tempo complementar – entre o repórter “de ar-condicionado” (que cobre, por exemplo, os bastidores políticos institucionais) e o que “suja os sapatos” (cobrindo crimes, guerras, populações). Ambos são importantes, afinal têm estreita relação, embora a autora tenha clara preferência por sujar os sapatos.

De forma paradoxal, o mundo globalizado está retrocedendo ao mesmo tempo em que avança em relação à era das fronteiras. O retrocesso: aumento das fronteiras físicas, com uma quantidade imensa de muros, cercas, arames farpados dividindo espaços e limitando direitos universais da humanidade. Concomitantemente, ressalta uma outra forma de demonização do “que vem de fora”, do estrangeiro: o avanço das bolhas digitais, também fronteiras. E nada melhor do que culpar um intruso por tudo que não vai bem. No caso dos venezuelanos em Roraima, haveria clara distinção entre mocinhos e bandidos? Segundo ela, não. “São situações difíceis para todos os lados, se os brasileiros das fronteiras são agressivos com os venezuelanos, os brasileiros de sul e sudeste são agressivos com os brasileiros das fronteiras. Tudo é amplificado e agravado pelas fakenews”.

A fabricação de fakenews forma uma grande câmara de eco que também fabrica estrangeiros (o estranho, o extra-ordinário), com um nível altíssimo e refinado de invasão de privacidades.

Qual o futuro do jornalismo? A crise econômica balançou o jornalismo tradicional, mas este começou a ser novamente necessário na era das notícias falsas propagadas em rede. “Todos podem ter suas opiniões, mas não seus próprios fatos”, lembra Campos Mello, citando o político e sociólogo americano Daniel Patrick Moyniham.

Por Cezar Tridapalli

Patrícia participou do bate-papo durante a abertura do nosso festival.
A mediação ficou por conta do jornalista e mestre em Estudos Literários, Christian Schwartz.