Litercultura lança o livro “Ética e pós-verdade” em parceria com a Editora Dublinense

Debruçar-se sobre a nossa realidade política, social e artística é um exercício que hoje requer a aproximação de um conceito que é debatido há pelo menos dois mil e quinhentos anos – ética – com outro recém-chegado ao léxico das grandes questões e que hoje praticamente define o contemporâneo – pós-verdade.

Ética e pós-verdade discute os dois temas em diferentes campos da criação e da reflexão ao reunir cinco ensaios com enfoques que passeiam pela política, psicanálise, filosofia e literatura, cinco abordagens distintas apresentadas por grandes nomes da cena cultural e intelectual brasileira.

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A expressão “pós-verdade” entrou em ampla circulação recentemente. Designa um fenômeno que não é novo em sua essência, mas inaudito em sua potência atual. Segundo o Dicionário Oxford, que em 2016 elegeu a pós-verdade como “palavra do ano”, o conceito apareceu pela primeira vez em 1992, num ensaio do escritor e dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich. Mas foram necessárias mais de duas décadas para que as virtualidades latentes do termo atingissem o estatuto de interpretante de nossa realidade social e política.

Enunciados que produzem significados sem substrato objetivo, que se impõem em função do apelo emocional e da suposta autoridade ou credibilidade de quem os formula, têm impacto não apenas sobre acontecimentos de grande magnitude – como ocorreu na eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos ou na campanha pelo Brexit (o referendo que fez o Reino Unido sair da União Europeia) –, mas também sobre a subjetividade, as representações artístico-literárias e, sobretudo, as nossas noções de ética.

Para discutir as consequências da pós-verdade em diferentes campos da criação e da reflexão, o Litercultura – evento que reúne anualmente escritores, artistas e intelectuais em Curitiba, num cruzamento de linguagens – convidou cinco dos mais representativos nomes de nossa cena cultural para refletir sobre a ética na era da pós-verdade.

O resultado é este livro, no qual cada autor discute a pós-verdade ou noções correlatas em sua área de atuação. O ponto de vista filosófico vem expresso tanto no ensaio de Vladimir Safatle – que interroga a racionalidade da argumentação em tempos de degradação das dinâmicas subjetivas e dos afetos pelo paradigma comunicacional imperante – quanto no texto da filósofa e escritora Marcia Tiburi – que analisa os delírios embutidos no espectro da verdade, em especial a “verdade digital” introduzida pelo advento das redes sociais.

Com o psicanalista Christian Dunker, a incidência da pós-verdade sobre o corpo, a subjetividade e a esfera pública da cidade aparecem como reação negativa e regressiva ao programa cultural e político do pós-modernismo, como “disciplina personalista da vontade” refratária ao excesso de indefinições da pós-modernidade.

O relativismo filosófico e epistemológico, por sua vez, está impregnado por reflexões sobre a tensão entre realidade e ficção que saltam do campo estritamente literário para ressignificar as mutações do romance na era da autoficção – tema do ensaio do escritor Julián Fuks – e para identificar uma ética da ficção que – conforme a formulação do ensaio do romancista Cristovão Tezza – está fundada sobre um reconhecimento do outro e do inacabamento da condição humana que fazem do “espírito da prosa” um antídoto contra os dogmatismos da era da pós-verdade.

Manuel da Costa Pinto

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, mas vive em Curitiba há muitos anos. Ficcionista, é autor de O fotógrafo, Beatriz, Breve espaço, Um erro emocional, A suavidade do vento, Trapo, O fantasma da infância, Juliano Pavollini, A tradutora e O professor, entre outros. Seu romance O filho eterno (2007) recebeu os principais prêmios literários do Brasil, foi publicado em uma dezena de países, adaptado ao teatro e virou filme. Tezza foi professor da área de Letras da UFPR durante vinte anos, de onde se demitiu para dedicar-se à literatura.

Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia (UFRGS), tendo feito um pós-doutorado em artes. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles Filosofia em comum, Filosofia brincante, Olho de vidro, Filosofia pop, Sociedade fissurada, Filosofia prática, ética, vida cotidiana, vida virtual. Publicou também romances: Magnólia, A mulher de costas, O manto e Era meu esse rosto. Recentemente, lançou Como conversar com um fascista e Ridículo político. Foi finalista do Jabuti, Portugal Telecom e Prêmio APCA. Desde 2008, coordena um Laboratório de Escrita Criativa. É também professora da UFRJ e colunista da revista Cult.

Christian Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, analista membro de Escola do Fórum do Campo Lacaniano. É autor de Estrutura e constituição da clínica psicanalítica, Mal-estar, sofrimento e sintoma e Reinvenção da intimidade.

Julián Fuks nasceu em São Paulo, em 1981. Escritor, crítico literário e mestre em literatura pela USP, é autor de, entre outros, Procura do romance (2012) e A resistência (2015), com o qual conquistou o Prêmio Jabuti e o Prêmio José Saramago. Seus textos foram publicados em jornais e revistas no Brasil e no exterior. Foi eleito pela revista Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

Vladimir Safatle nasceu em Santiago do Chile, em 1973. É mestre em filosofia pela USP e em filosofia pela Universidade de Paris VII. Professor livre-docente do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, foi professor convidado em diversas universidades no exterior. Com artigos traduzidos em inglês, francês, japonês, espanhol, sueco, catalão e alemão, suas publicações versam sobre psicanálise, teoria do reconhecimento, filosofia da música, filosofia francesa contemporânea e reflexão sobre a tradição dialética pós-hegeliana. Publicou A paixão do negativo: Lacan e a dialética (2006), Cinismo e falência da crítica (2008), A esquerda que não teme dizer seu nome (2012), Grande Hotel Abismo – para uma reconstrução da teoria do reconhecimento (2012) e O dever e seus impasses (2013).