Leonardo Padura foi o convidado do segundo dia do Litercultura 2019

O segundo dia de conferências do Litercultura 2019 contou com a presença do escritor cubano Leonardo Padura, em uma conversa com a jornalista Mariana Sanchez. Padura enveredou por diversas trilhas em sua discussão sobre fronteiras, a começar pelo isolamento cubano, seja político, em relação às instituições (Cuba fora da OEA, por exemplo), ou geográfico, numa alusão à própria insularidade cubana. Em termos culturais, Padura exaltou as riquezas, entre outras, de uma das músicas mais populares do mundo, muito maiores que sua ilha, assim como citou grandes expoentes do país em áreas diversas, do xadrez ao balé, do esporte à literatura. Dedicou tempo especial para celebrar a poesia cubana e a sua literatura de modo geral, feita de autores que hoje são cânones mundiais. Vê na ilha uma dialética complexa entre o fechamento e a projeção, entre o local e o universal.

Com todas as restrições vindas tanto de fora, o que gera problemas graves a Cuba, quanto de dentro, Padura, como escritor universal e que poderia habitar qualquer lugar do planeta, é perguntado a respeito de sua escolha por continuar morando em Cuba: “deve ser um direito inalienável cada um poder viver onde queira. Tenho a felicidade de poder escolher, e escolho Cuba, desde sempre”. O autor não foge à descrição das dificuldades que sempre enfrentou por causa de sua escolha, sobretudo as carências materiais, até mesmo de papel para escrever. Por outro lado, algo precioso nunca lhe faltou: tempo, “e um escritor precisa de tempo. Escrevo como louco para não ficar louco”. “Tenho o mesmo carro há 23 anos e não posso sequer pensar em comprar um novo porque custa o mesmo que uma nave espacial: uns 300 mil dólares. Além disso, sou o maior traficante de iogurte da história”, conta, fazendo humor com os fatos. Ainda sobre o tempo que a ilha lhe proporciona, é enfático ao dizer que, se não vivesse em Cuba, não teria escrito boa parte de sua obra. Entre mitos e verdades a respeito de retaliações, vai levando sua carreira internacional, nunca deixando de falar o que pensa, mesmo enfrentando como consequência o fato aparecer muito pouco na mídia de seu país.

Ao falar de seu personagem mais famoso, o investigador Mario Conde, Padura refere- se a ele como uma grande metáfora, mais que um alter ego, usado para se mover pelos vários mundos existentes dentro de Cuba. Havana é também personagem. “Se Mario Conde fosse um policial de verdade, estaria perdido, é um desastre como policial, um bêbado, cuja única qualidade é a persistência”. Mario Conde são os olhos do próprio autor, é por esses olhos que ele enxerga a ilha. Não se trata de um alter ego porque o investigador tem sua própria biografia, mas é um modo como Padura tenta entender Cuba e como quer fazer o seu leitor também entendê-la.

“Escrever ficção é um exercício de como a vida poderia ser”. Padura ainda contou sobre sua relação com o jornalismo, tendo trabalhado por anos nesta atividade. Segundo ele, “não entendia bem do assunto e acabava fazendo literatura, mas a condição humana dos retratados é a mesma”.

Ainda sobre o tempo que a ilha lhe proporciona, é enfático ao dizer que, se não vivesse em Cuba, não teria escrito boa parte de sua obra. Entre mitos e verdades a respeito de retaliações, vai levando sua carreira internacional, nunca deixando de falar o que pensa, mesmo enfrentando como consequência o fato aparecer muito pouco na mídia de seu país.
Ao falar de seu personagem mais famoso, o investigador Mario Conde, Padura refere- se a ele como uma grande metáfora, mais que um alter ego, usado para se mover pelos vários mundos existentes dentro de Cuba. Havana é também personagem. “Se Mario Conde fosse um policial de verdade, estaria perdido, é um desastre como policial, um bêbado, cuja única qualidade é a persistência”. Mario Conde são os olhos do próprio autor, é por esses olhos que ele enxerga a ilha. Não se trata de um alter ego porque o investigador tem sua própria biografia, mas é um modo como Padura tenta entender Cuba e como quer fazer o seu leitor também entendê-la.

(Por Cezar Tridapalli)

Nascido em Havana, o romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema ganhou reconhecimento internacional com a série de romances policiais Estações Havana. Tem nove livros traduzidos no Brasil, com destaque para O homem que amava os cachorros. Autor premiado internacionalmente – Prêmio Nacional de Literatura de Cuba e o Princesa de Asturias – Padura integrou a mesa do Litercultura 2019 no dia 13 de agosto.

A  mediação do dia ficou por conta de Mariana Sanchez.