Lançamento do livro “Fronteiras” acontece durante a abertura do Litercultura Festival Literário 2019

FRONTEIRAS

Com curadoria do jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto e direção-geral de Manoela Leão (Gusto Produção Cultural), o Litercultura 2019 mantém o firme propósito de refletir temas contemporâneos tanto na literatura quanto na cultura de modo mais amplo.

Os autores que integram as mesas de bate-papo ao longo dos cinco dias do evento, falarão ao público a partir de um texto autoral, por meio do qual discutirão seus pontos de vista específicos sobre o tema #FRONTEIRAS. Os textos, de formatos diversos – ensaio, depoimento, ficcional – estão reunidos no livro do #Litercultura2019, que será lançado segunda feira, 12 de agosto, pela Editora #Dublinense.

Veja alguns trechos dos autores e autoras:

“O novo mundo dos estrangeiros pré-fabricados”

(Patrícia Campos Mello)

Demonizar o estrangeiro sempre foi um recurso usado habilmente por políticos. Nada mais fácil do que culpar o intruso por tudo o que não vai bem.
O estranho pode vir na forma de uma onda de refugiados muçulmanos na Europa, milhões de sírios, iraquianos e afegãos que não comungam dos costumes cristãos, que conspurcam a civilização ocidental com suas burcas e sobrecarregam o já combalido estado de bem-estar social.
O estranho pode ser o hispânico nos Estados Unidos — aquele que o presidente americano Donald Trump chama de mexicano estuprador, traficante de drogas, que entra furtivamente pela fronteira para roubar o emprego dos outros.
A tecnologia, no entanto, facilita muito a vida dos populistas. Ninguém mais precisa achar um estrangeiro para ser o bode expiatório. Nas redes sociais, as milícias digitais se dedicam a fabricar estrangeiros”

(Patrícia Campos Mello – Participa do bate-papo durante a abertura do nosso festival, no dia 12/08 às 20h. A mediação fica por conta do jornalista e mestre em Estudos Literários, Christian Schwartz)

“A maldita circunstância de água por todo lado”

(Leonardo Padura)

Para aqueles que não conhecem Havana, minha cidade, devo dizer que o Malecón constitui ao mesmo tempo uma e muitas coisas: é, em primeiro lugar, um muro de cerca de um metro de altura e sessenta centímetros de largura que separa o mar da cidade faz um século. Com orgulho, os havaneses dizemos que é um banco no parque público mais comprido do mundo, visto que é um hábito arraigado sentar-se no muro, umas vezes de frente e outras vezes de costas para o mar, para curtir a brisa (quando há brisa) e praticar um dos mais amados esportes nacionais: el dolce far niente. Em geral, quem senta de cara para a cidade quer ver passar o tempo, as pessoas, contemplar a vida dos outros. Aqueles que optam por se acomodar de frente para o mar quase sempre estão empenhados em olhar para dentro de si mesmos, enquanto observam a superfície plana ou cacheada do oceano, um eterno mistério, promissório como todos os enigmas”

(Leonardo Padura participa do bate papo na terça,13 agosto, às 20h. Mediação de Mariana Sanchez)

“Pátria”

(Bernardo Carvalho)

“Se os velhos costumam falar sozinhos quando estão sozinhos, e porque estão sozinhos, e se estou sozinho e já posso ser considerado velho depois de todos estes anos preso, por erro, é claro, um erro corrigido quando já era tarde e eu já havia perdido a juventude, e depois de todos
estes anos sozinho, será possível afinal enganar as paredes e contar-lhes uma história, sempre a mesma, que as faça
acreditar que perdi a cabeça e me esquecer de uma vez por todas? Foi o que pensei quando voltei da prisão para este apartamento de refugiado. Comecei a contar a mesma história para que as paredes pensassem que eu tinha perdido a razão e me esquecessem”

(Bernardo Carvalho participa do bate papo na quarta,14 agosto, às 20h.Mediação de Manuel da Costa Pinto)

“Parábola do não retorno”

(Juan Cárdenas)

“A paisagem é uma invenção romântica e, portanto, é uma fantasia bucólica que sublima e disfarça um projeto de dominação. Já o território é uma sedimentação de experiências e saberes dentro de uma geografia concreta. O território é uma criação coletiva; a paisagem
é o resultado de uma perspectiva individual, inclusive em termos puramente técnicos e pictóricos, a paisagem é um único ponto de vista. O território, em troca, só acontece
graças à simultaneidade de muitas perspectivas.
Eu só me fiz consciente de todas essas coisas no exílio, evocando desde a distância esses espaços, essas pessoas, essas vozes”

(Juan Cárdenas participa do bate papo na quinta, 15 agosto, às 20h Mediação de Isabel Jasinski)

“Viajantes”

(Igiaba Scego)

“Não existem vistos, nem corredores humanitários, é um problema seu se, no país em que você nasceu, existe uma ditadura ou uma guerra, a Europa não olha na cara, você é só um incômodo. Eis que de Mogadíscio, de Cabul, de Damasco, a única possibilidade é ir para frente, passo a passo, inexoravelmente, inevitavelmente.
Uma linha reta na qual, já o sabemos, se encontra de tudo: atravessadores de migrantes, escravagistas, policiais corrompidos, terroristas, estupradores. Você está à mercê de um destino nefasto que condena pela geografia e não por algo que você fez”

(Igiaba Scego participa do Bate Papo na sexta,16 agosto, às 20h.Mediação de Maria Célia Martirani)

ENTRADA GRATUITA
Os ingressos serão retirados a partir das 18h no dia do evento, na Capela Santa Maria.