Juan Cárdenas, uma das vozes jovens mais ativas da literatura latino americana, participou do quarto dia do Litercultura 2019


“É impossível retornar, a ideia do retorno é uma ficção, assim como a origem”. Estas foram as palavras iniciais do escritor colombiano Juan Cárdenas, que conversou com o público do Litercultura 2019 na quarta noite do evento. Sua conferência, mediada pela professora Isabel Jasinski, partiu da inescapável reelaboração que ficcionaliza a ideia de retorno e de origem. Embora o mito do retorno dê segurança, crie chão, ele não contém uma possibilidade real. Cárdenas pensa a literatura como alegoria. Uma conversa do dia a dia já carrega em si elaboração ficcional, que deixa de ser o simples relato de fatos, pois existe aí um processo de transformação em cada narrativa, mesmo sem intenção literária. Há uma espécie de fantasma, feito de memórias editadas e inventadas. Também por isso, a onda de autoficção na literatura, que ele considera uma “moda”, tem em suas premissas a capacidade de matar a criação literária, que é sempre invenção, fantasia.
Juan Cárdenas morou por muitos anos na Espanha, e hoje habita novamente a América do Sul, a Colômbia. Decidiu voltar quando descobriu que nunca escreveria sobre a Europa, que a Europa não lhe interessava como matéria de romance. Mesmo da Espanha, escreveu romances – da distância e à distância – sobre a Colômbia, até chegar a hora de “redescobrir o país no país”, sua guerra de baixa intensidade, mas constante, misturada com tráfico internacional. Voltar exige determinação e um pouco de espírito suicida. Ao se perceber vítima de piadas por causa de seu sotaque, percebe também ser um pouco estrangeiro no próprio país.
Outro aspecto relacionado ao tema das fronteiras diz respeito a seu trabalho como tradutor, já que há questões políticas sobre a decisão de que livros traduzir. Além do mais, traduzir em que língua? Na do império espanhol ou nas múltiplas espanholidades da América? Trata-se de uma decisão política, que, sim, também demarca fronteiras.
Cárdenas resgata o discurso identitário já proposto por Bernardo Carvalho na terceira noite do festival, afirmando o quanto as identidades nacionais e étnicas têm potencial perigoso. Por não acreditar em fixidez das identidades, vê nelas espaços de trabalho e negociação, mais que de conforto. Eis também o trabalho da língua.
No desterro, vínculos afetivos criam pertencimentos diferentes dos pertencimentos do sangue e da terra supostamente original. Esse fato é visto por Cárdenas como produtivo para a literatura, mas uma experiência pessoal difícil. Afinal, é sempre complicado “experimentar a rejeição”. A adaptação compulsória, que consistiria em despir o estrangeiro de seus traços para integrá-lo, é algo a ser refutado, pois ninguém estraga a pureza do outro, até porque a pureza é sempre mítica, sem base real. Comunidades fechadas em suas identidades (na valorização do idêntico, portanto) se comportam muitas vezes de forma assustada, como se fossem pegar algum vírus. E ele, Cárdenas, considera-se esse vírus morando na Europa, condição em que se encontrou, preferível mesmo com todas as dificuldades à exigência de adaptação. “A contaminação, nesse sentido, é muito mais interessante. A ideia da Antropofagia de Oswald de Andrade é belíssima, e prefiro ser o índio tangendo um alaúde”.
Cárdenas afirma ainda que há uma ideia meio ingênua sobre mestiçagem, promovida politicamente para acabar com diferenças. Talvez seja mais acertado pensar na crioulização, diz, referindo-se ao poeta martinicano Édouard Glissant. Há uma bastardagem que define nossa relação com a cultura, a América se vê como bastarda, sem direito a uma filosofia própria. O cobiçado sucesso na Europa é exemplo de uma postura colonial, uma espécie de submissão literária que busca se enquadrar dentro do que o europeu pensa, quer e manda. Do fantástico maravilhoso à violência do tráfico, tudo isso faz sucesso na Europa, mas é possível renovar a linguagem de outros modos.

(Por Cezar Tridapalli)
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Considerado umas das vozes mais ativas da literatura latino americana atual, Juan Cárdenas é tradutor e escritor, nascido em Popayán, na Colômbia. Ainda inédito no Brasil, traz em suas obras provocações e reflexões atuais sobre política, religião e sociedade, sendo que em 2017 foi selecionado para integrar a lista do “Bogotá 39 Hay Festival” que nomeia os melhores autores de ficção com menos de 40 anos.

Sua obra mais recente, El diablo de las províncias, vem sendo cada vez mais elogiada ao questionar alguns “mantras” da civilização homogeneizada, trabalhando gêneros híbridos e colocando em evidência  “o colonialismo e o racismo, todas as selvagens domesticações privadas e públicas, que constituem preocupações importantíssimas para a interpretação da cultura” (Marta Sanz, para El país).

Juan Cárdenas participou do bate papo no quarto dia do Litercultura 2019. A mediação ficou por conta de Isabel Jasinski.