Igiaba Scego discutiu questões como pertencimento, identidade e imigração no último dia do Litercultura 2019


A escritora italiana de origem somali Igiaba Scego encerrou a série de conferências do Litercultura 2019 em uma conversa com a professora Maria Célia Martirani. As fronteiras geopolíticas dominaram a conversa e a autora fez uma fala contundente sobre a condição do refugiado contemporâneo, sobretudo aquele próximo à sua realidade, que é a vivida no mar Mediterrâneo, tornado hoje um verdadeiro cemitério. Em 2005, eram 13 mortos, e isso chocava os italianos – os corpos foram transportados a Roma, havia muita gente e uma comoção tomou conta da Itália e da Europa de modo geral. Em 2019, mais de 1500 mortos, e ninguém mais dá importância, fato sintomático de como a Europa perdeu a humanidade. O ir e vir nos anos 1970, 1980, quando os habitantes do “sul do mundo” estudavam onde quisessem, é realidade distante. Hoje devem pagar um traficante. Famílias gastam o que têm e o que não têm para que o migrante ainda corra o risco de perder a vida. A travessia é terrível, mulheres e homens são violentados.
“Estamos obrigando as pessoas a fazer esse tipo de viagem”. As pessoas que estão nos barcos são transformadas em números. Por que os corpos do norte podem viajar, e outros corpos não podem? Scego lembra de um absurdo ranking, tipo de bolsa de valores entre os passaportes de todos os países, que tem o italiano em terceiro lugar, enquanto o somali está em último. Mesmo dentro da África as fronteiras não estão abertas, ou seja, as fronteiras intracontinentais ainda são mais um agravante para a questão.
Ao pensar na escravidão americana, a autora toma a imagem dos oceanos e mares, unidos pelas águas do planeta, para dizer que sobrevoá-los, seja o Atlântico ou Mediterrâneo, é sinônimo de dor e morte, de escravidão e rejeição de pessoas. Nesse circuito, estabelece-se a globalização da indiferença. “É como viver em uma casa que perdeu a alma”. A literatura, segundo a autora, é caminho, mas também uma casa.
Para dar uma ideia da devastação europeia na Somália, Scego evoca a imagem do dia depois do 11 de setembro, que provocou um choque terrível nos nova iorquinos. Não ver mais a paisagem que fazia parte tanto do cenário real quanto do imaginário desorientou as pessoas. É então que Scego convida a pensar essa desorientação multiplicada por um milhão, para que possamos ter alguma noção do que foi a tragédia que ocorreu em Mogadíscio, capital da Somália.
Scego faz uma interessante incursão pelas tiranias que nos habitam, trazendo como exemplo seu próprio avô, que, mesmo negro, era apoiador do fascismo, intérprete que “traduzia as palavras do fascismo”. Hoje, a Somália é uma terra esquartejada, sem qualquer estabilidade, onde nasceram seus pais, avós, irmãos, e que foi devastada, perdendo, por exemplo, sua cultura pesqueira. Vale lembrar que ainda hoje o norte vende arma para o sul do mundo. Costurando passado e presente, Scego destaca os estereótipos em relação aos negros, impressionada com o fato de que estes não
mudam. São corpos vistos ainda como objeto, as mulheres ainda hipersexualizadas. Protagonismos impossíveis, na vida e na arte, como o cinema, por exemplo, questão de que trata também em seu romance Adua, destacando figuras que, tendo sofrido, não perdem a oportunidade de também infligir sofrimento aos outros.
Por esses motivos, uma de suas obsessões é o colonialismo europeu, que permeia sua literatura, pesquisa e militância. Só mais tarde, depois de passar a infância olhando os mapas da África – cujos territórios “pareciam fatias de bolo de tão bem delineados” – foi entender que tudo era fruto da divisão colonial. A Itália colonizadora vende a imagem de que os italianos brava gente não eram malvados como franceses, ingleses, portugueses. É preciso desmistificar o clichê. Italianos bombardearam países como a Líbia com armas químicas, fato pouco destacado na história italiana. O livro Roma negata: percorsi postcoloniali nella città (Roma negada: percursos pós-coloniais na cidade, sem tradução no Brasil), feito por ela com Rino Bianchi, mapeou toda a cidade de Roma, e percebeu que a África colonial está presente com muitos traços. O livro conta a história cultural da influência africana, com uma reação interessante dos italianos, que compreenderam aspectos da cidade nunca compreendidos antes. Scego deixa claro que não fez o livro pra culpar os italianos, mas para que o passado não se repita.
Como autora, incomoda-se com rótulos colados a sua obra e à de outros autores afrodescendentes. Literatura de refúgio? Literatura da migração? Literatura é literatura. Considera-se escritora de literatura, italiana e negra, mais que de imigração, visto que não migrou.
Por fim, destaca as muitas conexões com o Brasil, pelos estereótipos, pela escravidão e colonialismo. E conta ter recebido muitas cartas de leitoras dizendo: “você contou a minha vida”. Leitores descobrem outros mundos e, descobrindo outros mundos, descobrem a si mesmos.

(Por Cezar Tridapalli)
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Nascida em Roma e de família de origem somali, Igiaba ganhou prêmios e participou de inúmeros eventos no Brasil como o Festival de Literatura de Mântua, em 2006 e a Flip de 2018. No Brasil a autora tem lançadas as obras Minha casa é Onde Estou, onde por meio de memórias pessoais discute questões como pertencimento, identidade e imigração, e Caminhando Contra o Vento, um ensaio-depoimento apaixonado sobre Caetano Veloso. Igiaba Scego integrou a programação no encerramento do Litercultura 2019.
A mediação do dia ficou por conta de Maria Célia Martirani.