Destaque da literatura brasileira, Bernardo Carvalho foi o convidado do terceiro dia do Litercultura 2019

O terceiro dia do Litercultura Festival Literário 2019 trouxe o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, cuja conversa com o público foi mediada pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto. A partir do seu monólogo “Pátria”, constante do livro Fronteiras: territórios da literatura e da geopolítica – uma parceria entre o Festival e a Editora Dublinense –, Bernardo Carvalho começa explicando o contexto em que o monólogo foi escrito e sua relação com o tema do Litercultura. A partir do convite de um dramaturgo português, que lhe pediu um texto sobre família, ele parte em busca de um avesso complementar do tema: um refugiado solitário que tem – ao contrário de tantos personagens que vão se construindo ao longo da narração – sua identidade se desintegrando, desconstituindo-se.
O tema da identidade passa a ser o foco da fala do autor. Somos idênticos a alguém? “A identidade é algo a ser combatido nos meus livros, é um véu que encobre a verdade, uma verdade dura de encarar e que não tem nome, é incognoscível”. E algo que não tem nome é o contrário da identidade. Desde que começou a fazer literatura já perseguia essa ideia de destruir a noção de identidade, embora tenha sido enfático ao reconhecer o quanto as lutas identitárias foram e são importantes para darem vez, voz e reconhecimento a grupos historicamente oprimidos. Artisticamente, no entanto, prefere ver na identidade uma porosidade intercambiável e em constante mudança, jamais um pertencimento estável. Não interessa a Carvalho o que se tem em comum com os outros, mas a singularidade. A identidade não significa pertencimento perene, é algo movente o tempo todo: “não é porque alguém usa perna de pau que será igual a todos que usam perna de pau”, exemplifica.
Portanto, literatura precisa ir além da afirmação de discursos reconhecidos. Para isso, lembra de Conrad, citando Nietzsche: originalidade é nomear o que ainda não se sabe, é nomear a indefinição, não o que já está nomeado. É fazer ver o que não tem nome. Qual a função de afirmar o que já foi tantas vezes afirmado? Por mais devedor que o sujeito social seja dos movimentos e lutas, a arte que ele faz não pode se submeter a uma estabilização. O lugar da literatura pode fazer doer, e geralmente o faz.
Se a literatura não pode ser apenas a representação do que já existe, ela precisa se lançar em um movimento de experiência prospectiva. É ação, mais que reação ou representação. Não é reconhecimento, é processo de conhecimento. Talvez por isso não faça tanto sucesso ao competir com o entretenimento: “quem quer se entreter com algo que nos contradiz?” Carvalho cita então as redes sociais como armadilha narcisista, em que a alteridade que questiona o sujeito passa a ser insuportável.
Por todas estas questões, o autor busca fazer viagens para lugares onde não entenda nada do outro, a fim de que o encontro ou desencontro traga atritos e desorientação. Não à toa, busca tribos pouco conhecidas, lembra suas viagens à Mongólia, ao Japão,
em que não lhe era possível uma representação a priori. Busca, enfim, um “choque entre subjetividades”.
A contradição, por outro lado, não se dá apenas entre sujeitos diferentes, ela aparece também no interior do indivíduo, em suas relações, por exemplo, entre o pecado e o desejo. A contradição, enfim, mora dentro de nós, assim como “a vacina é o mal de que você precisa”. Numa era plena de meios que apenas confirmam a identidade, a literatura é forma de destoar. Se a internet nos permite ver só o que queremos, a literatura (e aqui Carvalho também traz a escola como exemplo) propõe, ou mesmo impõe, o que não queremos ver. Conhecimento não é só prazer imediato, mas prazer duradouro e consistente, mesmo que seja impossível ao sujeito fugir de seu núcleo narcisista. Buscar um lugar de não domesticação é fazer a arte não seguir por uma lógica de correspondência. Caso contrário, veremos tempos como os de hoje, infantilizados, cuja contrariedade acaba por formar adultos birrentos.

(Por Cezar Tridapalli)
.
.
.

Um dos mais destacados romancistas da literatura brasileira atual, autor de mais de dez obras, Bernardo recebeu diversos prêmios entre os mais importantes da literatura em língua portuguesa, como o Jabuti, APCA e Portugal Telecom.

Em seu romance O filho da mãe, de 2009, por exemplo, o autor narra a trajetória de muitas mulheres, mães, que buscam “livrar seus filhos da guerra, da solidão e do crime”. Os personagens transitam por vários espaços do globo, do Oiapoque ao Nieva, de Grozni ao mar do Japão. São filhos extraviados de mães aflitas e pais autoritários ou ausentes.

Bernardo Carvalho participou do bate papo no terceiro dia do festival, com mediação de Manuel da Costa Pinto.